Acervo Acalantos
Acervo Acalantos
      (por línguas)

Alemão
Armênio
Basco
Búlgaro
Chinês
Coreano
Crioulo
Croata
Espanhol
Francês
Húngaro
Inglês
Italiano
Japonês
Línguas Indígenas
Norueguês
Português
Russo
Ucraniano

Pesquisas e Referências
Textos
Envie o seu Acalanto
 

 
Textos


Entrevista com Cascia Frade
Concedida ao Instituto Auditório Ibirapuera em junho de 2008

IAI: O que você pensa sobre a iniciativa do Instituto Auditório Ibirapuera de criar o Projeto Acalanto?
CF: Na verdade achei interessante e parece-me uma iniciativa inédita, pelo menos no Brasil. Embora no dicionário de folclore brasileiro Câmara Cascudo faça inúmeras referências à obras e textos sobre o tema, não tenho percebido interesses mais recentes. Não sei qual a verdadeira razão. Talvez porque situemos como acalanto somente canções tradicionais, objetos de uma memória secular. Mas, se pensarmos na função primordial deles – acalentar, adormecer – possivelmente daremos conta de que novas melodias têm o mesmo objetivo, mesmo que não tenham sido criadas com essa finalidade. Os mais ortodoxos hão de rejeitar as transformações, entretanto, considerando a dinâmica própria das expressões culturais, das ressignificações que possam ocorrer, mesmo em se tratando de uma cultura tradicional, é possível que esse repertório musical tenha se ampliado. Logo, me parece interessantíssimo o projeto que possa traçar essa trajetória entre passado e presente, o antigo e o contemporâneo, o mundo de nossa infância e o dos nossos filhos e netos.

IAI: Você conhece estudos acadêmicos importantes sobre acalantos?
CF: Desconheço estudos mais apurados sobre o tema. Lembro-me de ter lido há muitos e muitos anos passados um pequeno ensaio na área da psicologia. O texto dizia que os acalantos seriam uma forma eficaz de levar a criança a fugir, através do sono, de situações atemorizantes. Não me recordo nem do autor, nem do título. A certeza é a área de estudo, a psicologia. No campo da antropologia e demais, não sei. Talvez uma consulta ao banco de dados da CAPES, CNPQ e outros órgãos que registram teses e dissertações.

IAI: Você acredita que este acervo composto pelos acalantos, ensaios e referências bibliográficas pode ser fonte importante para o desenvolvimento de estudos acadêmicos?
CF: Justamente pela raridade de estudos recentes (que poderão existir, mas não são divulgados) o Projeto Acalanto se torna importante. Além de registrar e divulgar o que se tem produzido, sem dúvida este projeto poderá ajudar aos pesquisadores em suas reflexões sobre o tema. Não existe situação mais angustiante para os estudiosos do que se dar conta de que, para fundamentar suas idéias sobre seu objeto de pesquisa não há material que possa ajudá-lo. Nesse sentido, quero louvar essa iniciativa do Instituto Auditório Ibirapuera.

IAI: É possível afirmar que todas as culturas ninam seus filhos?
CF: Segundo ainda Cascudo, todas as culturas possuem canções de adormecer. Tanto na sociedade industrializada, quanto na pré-industriais essas melodias de adormecer estão ou estiveram presentes com a mesma finalidade. Esse autor registra, inclusive, a presença delas entre grupos indígenas brasileiros, o que me parece também campo rico de investigação. Uma questão aqui se coloca: embora tudo indique que os nossos acalantos procedam da península ibérica, até onde eles não se somaram àqueles já existentes no Brasil pré-cabralino?

IAI: Independentemente do hibridismo que possa ter ocorrido em nosso país o que ocorre hoje, quando o mercado fonológico possui grande força de produção e divulgação? Canções objetivando consumo mais amplo podem se converter em acalantos? Que melodias podem atender a essa função?
CF: Veja que o assunto é pleno de possibilidades e eu, mais do que responder, me indago e apresento questões. Conforme lhe disse, esse não é um tema que baliza minhas pesquisas cotidianas, embora o ache fascinante, e eu, então lhe faço mais uma pergunta: além de recolher canções e textos, que tal organizar o projeto que enfoque a possibilidade da existência de um diálogo entre essa tradição e a modernidade do universo dos acalantos?



Cascia Frade é Professora Adjunta de cultura popular na Universidade Estadual do Rio de Janeiro e vice-presidente da Comissão Nacional de Folclore/UNESCO.
 
Desenvolvido Por: NHW