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Do acalentar e de acalantos
Leandro de Lajonquière, psicanalista

Costumamos dizer com relação a certas coisas que as mesmas são tão antigas quanto o homem. Outras vezes, sobre essas, ou outras coisas, afirmamos que são tão naturais como o andar para frente. Ambas as afirmações integram nosso repertório corriqueiro. A sua maneira, dizem algo da verdade como também a mascaram, a sua maneira.

Desconheço se existe uma história dos acalantos, assim como temos uma história da vestimenta ou dos modos à mesa. No entanto, não duvido que os acalantos sejam tão velhos quanto o homem, bem como tão naturais quanto andarmos para frente. Arrisco-me nesta afirmação: o fato de um adulto acalentar um bebê é inerente àquilo que chamamos humanidade. Isto é, o acalentar não é dedicadamente apreendido como, por exemplo, apreende-se a escrever na escola, embora o homem seja o único animal capaz de escrever e, portanto, em certo sentido, a escrita também entranhe algo de nossa sempre frágil humanidade.

Afirmar que o fato de cantarmos para adormecer um bebê seja tão velho quanto o homem e tão natural quanto andar para frente não significa, no entanto, que seja dado de graça, que o embalo nas cantigas caia do céu ou, em outras palavras, que o adulto – a imensa maioria das vezes a mãe, mas não excludentemente -, que cantarola no escuro tentando fazer adormecer o bebê, não esteja implicado nesse ato. Em suma, todo adulto faz o humanamente possível quando coloca necessariamente seus esforços no acalento, bem como tudo aquilo que é decididamente humano bem pode, também, num dado momento, desmanchar-se no ar.

Os animais não recitam acalantos a seus filhotes. Não apenas porque os animais não falam – mesmo que às vezes isso possa nos parecer, como no caso dos papagaios – senão também porque os filhotes não são seus filhos, ou seja, seus filhotes. Nós acalentamos com acalantos nossas crianças porque são nossos filhos ou, caso não o sejam, porque bem poderiam sê-lo. O acalentar e o filiar são duas caras de uma mesma moeda. O acalentar e o familiar são verso e reverso de uma mesma realidade. Os animais não cantam para adormecer suas crias, pois não tem família, mesmo que possam andar em bandos na natureza. É claro, também é possível pensar que, por exemplo, os gorilas não tenham família porque não podem, de direito e de fato, recitar acalantos ao anoitecer.

A seleção das cantigas do acervo deste museu virtual passa de geração em geração. O traspasso não é de fato linear. Nenhum dos adultos entrevistados lembra de fato quando a sua própria mãe cantarolava na hora do adormecer quando bebê. Essa lembrança é impossível. Os adultos dizem ter cantarolado ou ainda cantarolar as crianças de agora aquilo que lembram ter ouvido quando a mãe, ou uma avó, acalentava um irmão ou aquilo que lembram que a mãe, ou uma avó, disseram alguma vez para a criança, já crescida, ter cantarolado quando esta era pequeninha. É claro, também há casos de quem diz lembrar não ter podido dormir quando já mais crescidinho e, assim, lembrar mamãe cantarolar...

Os acalantos, a maioria das vez, são curtos. Talvez para que, assim, possam ser repetidos uma e outra vez. Ou quiçá, o fato de eles serem repetidos uma e outra vez até o incerto dormir do bebê, torne curtos os acalantos. Quem sabe? Quando um pouco mais longos, a letra se desdobra em repetições. Talvez, porque o adulto pede e volta pedir - repetir – que o bebê durma. Será? Por outro lado, no cantarolar de uma geração à outra geração, um acalanto gera outros e cada um pode virar um outro.

Minha filha - Sofía - logo se revelou um bebê de bem dormir. No entanto, deu à mãe e a mim, algumas boas oportunidades. O Arroro mi Nena que cantarolei não é muito bem aquele do acervo. Às vezes, cantarolei uma versão mais simples, outras, uma mistura desse acalanto com aquele Duérmete Niño. Mais também, houve noites nas quais me aventurei a dar costura a outras improvisadas derivações, muito embora eu não seja dado à musicalidade, como uma boa parte da minha família tampouco é. A mãe de Sofía, por outro lado, acalantou uma e outra vez com graça musical o Nana Nenê que a cuca vem pegar...... mas era uma outra versão daquela do acervo na qual a mãe ia para o cafezal, enquanto o papai estava na roça. Minha esposa – Tânia - também cantarolou aquele do Boi... boi da cara preta. Eu gostava escutá-la entoar, em particular, este último que lembra do temor às caretas.

Certa vez, quando ouvia o Boi da cara preta - já pela vez não sei das quantas - consegui escutar a referência à criança que tem medo de careta. Antes, ela tinha passado despercebida. Na seqüência me retornou, retroativamente, aquele outro acalanto onde a cuca vem pegar o neném se este não dormir, bem como aquele outro verso em espanhol do Duérmete niño no qual o cuco virá comer o bebê também se ele teimar em não dormir. Curioso, não?

De fato, já ouvi há tempos gente que diz que os acalantos não seriam adequados para os bebês uma vez que veiculariam supostas ameaças... Essa e outras reclamações similares são filhas da ilusão que reza fazer coisas supostamente adequadas tanto à suposta inteligência, quanto à suposta ingenuidade ou pureza infantil. Semelhante crença na possibilidade de existir tal adequação na vida junto às crianças é isso mesmo uma ilusão, ou seja, uma crença animada por um desejo de se encontrar a harmonia que sempre falta ao rendez-vous.

Os acalantos não têm como serem adequados; talvez porque eles devam tanto acalentar quanto acalantar, justamente, essa falta de harmonia entre o adulto e o bebê. Então, a letra vale pelo que diz dessa falta de harmonia ou proporção, para o adulto que a escuta além do que ouve. Em outras palavras, o adulto cantarola no escuro para assim ninar algo de si, embora pareça ser a criança a destinatária da cantiga.

Quem não cantarolou no escuro alguma vez? Certamente, isso não fez com que enxergasse melhor, mas deve ter iluminado uma luz no fim do túnel para, assim, caminhar mais tranqüilo. Nesse sentido, os acalantos cantarolados, noite adentro, com vistas a fazer dormir o neném, talvez, primeiro, tragam calmaria ao adulto e esta, por sua vez, sentida na pele e nos ouvidos seja a que faça dormir o pequeno.

Mas por que um adulto estaria intranqüilo à noite? Bem podemos responder: por que o bebê não dorme e o adulto tem que levantar cedo no dia seguinte para ir trabalhar! Mas se tudo nas nossas vidas fosse tão linear e mecânico, nós não seríamos tão humanos como somos...

À noite ficamos de fato intranqüilos. Na tranqüilidade do escuro enxergamos a fragilidade da existência, a imensidão das forças da natureza. A noite de hoje, também, nos lembra das noites de quando éramos pequenos, a mercê do caráter, sempre em última instância, ineducável da realidade pulsional, da densidade insistente dos afetos.

Por outro lado, uma criança pousa no colo de sua mãe e, embora não seja o início absoluto de nada, pois a historia já estava em curso, aí se instala uma diferença entre um antes e um depois. Agora, a senhora de plantão se depara com o fato de aceitar, ou não, ser mãe desse pequeno que chega ao mundo sempre mais ou menos estrangeiro com relação àqueles que já o habitam faz tempo. Essa decisão, que implica numa adoção, numa acolhida do bebê, ecoa no horizonte e manda às favas o suposto instinto materno.

Os bebês dormem de dia, são mais sociáveis de noite, choram por coisas que os grandes não entendem, fazem todo tipo de caretas – será que é por isso que a cantiga do Boi da cara preta faz alusão às caretas que amedrontam? -, falam uma língua que não parece ser de fácil compreensão, dentre outras coisas meio esquisitas à vida adulta já feita cotidiana e familiar. Nesse sentido, não é para menos que a natureza estrangeira do recém chegado vire intranqüilidade adulta.

Um bebê é de fato estrangeiro ou ele é considerado tal? Semelhante pergunta não tem resposta. O importante é a criança ser recebida como se o fosse, pois isso metaforiza o inevitável desencontro no real entre o adulto e o pequeno ser.

Que uma criança seja recebida como se fosse um estrangeiro, não é equivalente a que o seja, ao contrário, como se fosse um extraterrestre ou um selvagem. Do indivíduo considerado um selvagem aquele que se toma por civilizado pretende manter certa distância. Se o considera um bom-selvagem, então, quererá estudá-lo de forma minuciosa e científica para, assim, saber da exata medida da diferença que há entre ambos e, dessa maneira, apagar o estranho mistério que tanto anima um quanto angustia ao outro. Ao contrário, se se trata de um mal-selvagem, o civilizado tentará livrar-se da temerária estranheza organizando uma campanha de extermínio. Por outro lado, do extraterrestre, no fundo nada queremos saber, tão só queremos manter sempre a mesma distância que, ao mesmo tempo, nos permita adorá-lo, sonhá-lo, como também fugirmos dele caso lhe ocorra aproximar-se um pouco mais de nós. Tanto um quanto o outro são tratados diferentemente de um estrangeiro ao qual lhe supomos, com maior ou menor simpatia, que possui coisas de um outro mundo para nos contar, bem como também lhe supomos estar interessado em saber como nós somos. Em suma, receber um estrangeiro dá samba, enquanto um bebê como se o fosse, bem pode fazer soar acalantos! Ao contrário, não acalentamos nem extraterrestres nem selvagens: eles não tem nada a nos dizer, nem nós a lhes cantarolar.

Uma mãe fala para seu bebê na espera que ele aprenda a sua língua e, dessa forma, possa contar a ela sobre essas coisas de Outro mundo, vindo, assim, ambos a serem menos estrangeiros, menos estranhos entre si e, portanto, mais familiares os dois. Uma mãe supõe ao pequeno recém chegado ao mundo, a mesma iniciativa comunicativa que ela possui, bem como a sua mesma inteligência para o diálogo. Como não supor? Caso não o fizesse, então, não falaria ao bebê. Assim, ela fala de dia e cantarola de noite. Porém, uma mãe também sabe que tanto essa iniciativa comunicativa quanto essa inteligência estão ainda tomadas por certa fragilidade. Por isso mesmo uma mãe insiste: fala de dia e cantarola de noite. De onde advém semelhante insistência vocal?

Certa vez Sigmund Freud – o pai da psicanálise – afirmou: “...a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida. E é essa a batalha de Titãs que nossas babás tentam apaziguar com sua cantiga de ninar!”.


Leandro de Lajonquière é psicanalista, doutor em Educação pela UNICAMP, Livre-Docente em Ciências da Educação pela USP, Professor Titular da Universidade de São Paulo e autor dentre outros de "Infância e Ilusão (Psico)Pedagógica", da Editora Vozes.
 
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