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Textos
A esquina das crianças
Marcelo Bratke, pianista
"Preguiçoso, levanta que o galo canta"... era um dos versos que minha mãe cantava na hora de me tirar da cama para ir a escola. Até hoje, quando me lembro disso, uma sensação de leveza me invade a alma.
Todas as mães do mundo um dia devem ter cantado algo para os seus filhos. Depois vem as canções que os amiguinhos trazem de suas origens e nos cantam na hora do recreio, e a gente vai ouvindo e cantando junto e vivenciando e lembrando depois; e depois a gente vai guardando essas melodias que ficam para sempre ecoando durante toda a vida.
Para mim, este espaço sonoro que habita a mente e o espírito; esse micro-cosmos afetivo é como uma espécie de "Esquina das Crianças" imaginária onde não há obstáculos de comunicação entre linguagens antagônicas, há sim um intercâmbio onde tudo se mescla e se amalgama de maneira natural (no mundo "civilizado" dos adultos, os contrastes são bem mais evidentes).
É da inocência e da pureza da infância que emergem estas memórias de afeto e ética que através da música permanecem vivas.
Como dizia o pintor catalão Joan Miró: "Eu dediquei minha vida a aprender a pintar com a liberdade de uma criança".
Villa-Lobos, Debussy, Bartok, Schumann e Gubaydulina, entre tantos outros compositores também se dedicaram a essa prática em busca de um tempo perdido da infância com suas Cirandas, Acalantos e Canções de Roda onde melodias lúdicas vão contando a história do homem.
Obras assim nos ajudam a compreender que a música tem, por sua própria natureza, a chave da coexistência.
O escritor Victor Hugo não precisou ser um instrumentista virtuoso e nem um regente magistral para compreender que a música expressa o que não pode ser colocado em palavras e o que não pode permanecer em silêncio.
Marcelo Bratke é pianista e regente. Estudou na Juilliard School of Music em Nova York e seu CD, dedicado ao Le Groupe des Six, de Jean Cocteau, foi considerado pela revista britânica Gramophone como uma das melhores gravações eruditas de todos os tempos.
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