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Cantar e encantar


Paulo Tatit*

A mãe conversa o tempo todo com seu neném, mas o que fica de suas mensagens é principalmente a melodia. Quando nos comunicamos com uma criança nosso tom de voz sempre se eleva, fica mais agudo, e as palavras mais alongadas. Quanto menor a criança, mais estendemos as vogais, tornando nossa fala mais próxima de um canto. Um canto com melodias bem soltas e livres como o canto atonal de um bebê.

Um bebê primeiramente canta, depois vai colocando palavras em sua entoação tal como se faz nas canções em parceria, quando o letrista se inspira na melodia do parceiro. É assim a construção da nossa linguagem falada: primeiro a melodia, depois as palavras e os seus sentimentos.

A mãe conversa o tempo todo com seu neném, mas o que fica de suas mensagens é principalmente a melodia, melodia maravilhosa emitida por um instrumento muito especial: as cordas vocais da mãe. Esse som dá prazer, conforto e segurança ao bebê. Toda mãe deveria cantar para o filho e preencher o seu mundo com música.

Mas nem sempre isso é possível. Numa sociedade como a nossa, em que o grau de ansiedade com o tempo mantém-se constantemente elevado, os contatos básicos e intuitivos – como o de despender meia hora para cantarolar uma melodia para um bebê – são práticas que tendem a ser alijadas do dia-a-dia.

Muitas vezes, as mães nem sequer dispõem de um repertório para cantarolar. O aprendizado natural de canções que passavam de pais para filhos já foi há muito tempo interrompido. Então, cantar o quê? Como cantar? Quais melodias e quais letras?

O mercado de consumo não perde tempo e oferece suas respostas: CDs contendo músicas delicadas, muitos com sons de caixinhas de música que reproduzem trechos do repertório clássico europeu, fitas de vídeo para entreter bebês "de 0 a 4 anos"! Bem, eu não gostaria que minha filhinha tivesse por companhia um monitor de televisão. Um bebê precisa do toque, do olhar, do cuidado de outras pessoas!

Gosto de imaginar que o cérebro de uma criança de até 2 anos ainda está em plena maturação. O processo todo só se completa na convivência com seus semelhantes. Antes disso, o mundo do bebê é muito sonoro. Ele próprio gosta de cantar e, para acompanhar seu canto, damos a ele um chocalhinho. É curioso lembrar que o chocalho é o instrumento que todos os pajés e feiticeiros do mundo utilizam para invocar o mundo sobrenatural, o mundo espiritual, o mundo mágico.

Acho que a melhor música para um bebê é aquela emitida ao vivo por uma voz que o ama. Nessa fase, não é preciso se preocupar com afinação nem com valores timbrísticos, pois tudo isso é supérfluo diante do essencial, que é a nossa presença, de corpo e alma, emitindo uma melodia. Cantar e encantar são palavras com a mesma raiz e é exatamente isso que deve acontecer quando cantamos com vontade para os bebês – um verdadeiro ritual de encantamento.


* Paulo Tatit é músico e produtor do selo Palavra Cantada, especializado em música para crianças.
E-mail: ptatit@palavracantada.com.br
 
 
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