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COMENTÁRIO SOBRE A ORQUESTRA BRASILEIRA
Roberto Gnattali
“Aí, eu vou misturar
Miami com Copacabana
e o meu samba vai ficar assim“.
Chiclete com banana
(Gordurinha e Almira Castilho)
A orquestra brasileira é aquela cuja formação e configuração tímbrica nos possibilite executar, respeitados seus traços específicos de linguagem, os gêneros musicais representativos das diversas regiões do Brasil.
- O que é gênero musical?
Resumindo, um gênero musical engloba uma determinada forma, um determinado ritmo melódico, mais ou menos constante, uma “levada” rítmica básica, uma “ronda harmônica” característica e um jeito próprio de executar tudo isso, conforme a época e o “movimento” em que a música se insere.
- E que gêneros são esses?
Os que se fixaram e se consolidaram no Brasil desde, pelo menos, o final do século XVIII até o início da década de 1960 do século XX. Dentre esses gêneros podemos destacar os pioneiros modinha e lundu, a polca e o tango brasileiros, o xote (originário do complicado schottisch) o maxixe e mais: choro, toada, samba, maracatu, ciranda, frevo, baião, marcha-rancho, rancheira, vanerão e outros.
- A diversidade musical brasileira, parece, não é comparável a de nenhum outro país; somos campeões da música popular?
Possivelmente, muito embora, nós, brasileiros, sejamos, no campo da educação, campeões do descuido da nossa cultura.
Essa música regional, de raiz popular, urbana ou rural, originou-se, como sabemos, do cruzamento de matrizes étnico-culturais muito definidas: o conquistador europeu, o índio brasileiro, o negro-africano. Portanto, nossa orquestra brasileira não pode prescindir das sonoridades ancestrais dessas culturas, que perpassam nossa memória musical, até hoje. Lembremos-nos de que a música de origem ibérica, carregada de influência árabe, foi a primeira música estrangeira a desembarcar em terras brasileiras no século XVI, trazida pelo colonizador português.
Com a palavra, o maestro Radamés Gnattali:
“Naquele tempo [entre 1930 e 1940, aproximadamente] não tinha orquestra de música brasileira, tinha regional e orquestra de salão, com cordas e flautas, para tocar trechos de operetas, árias de óperas. Já vinha tudo impresso, tudo de fora. (...) eu comecei a fazer pequenos arranjos para trio - eu no piano, o Iberê [Iberê Gomes Grosso] no violoncelo e o Romeu Ghypsman no violino. Eu comecei a fazer pequenas peças, como toada, choro, valsa. Porque naquele tempo não tinha um roteiro: um buraco na programação, eu tocava alguma música para tapar esse buraco. Daí eu comecei a escrever. Depois os cantores começaram a gostar e pediram para eu fazer os arranjos”.
Em 1943 a Rádio Nacional estréia o programa Um Milhão de Melodias, uma espécie de “parada de sucessos” mundial, patrocinado pela Coca-Cola, em lançamento no Brasil. Radamés aceita dirigir o programa, com uma condição: para executar tantos gêneros e estilos diferentes era necessário ampliar a orquestra da casa. Com o “vai em frente” do patrocinador, Radamés pôde completar os naipes da orquestra: madeiras dobradas (com 5 saxofones), metais, um grupo completo de cordas de arco (violinos, violas, cellos e contrabaixo), celesta, harpa, tímpanos e um conjunto regional de choro, com excelentes ritmistas.
O maestro continua:
“Eu então disse: pra fazer uma boa orquestra de música brasileira, precisamos ter uma boa base. Então, tinha dois violões, cavaquinho. Às vezes três cavaquinhos, conforme o arranjo que eu queria. (...) tinha uma bateria espetacular, que era o Luciano [Luciano Perrone]; o João da Baiana, no pandeiro, o Heitor dos Prazeres, que tocava caixeta, prato e faca e o Bide [Alcebíades Barcelos], que tocava ganzá. Era uma massa muito boa”.
A orquestra brasileira, tal como a concebemos hoje, é uma criação relativamente recente, de meados da década de 1930 em diante, quando se fazem mais presentes as influências das big-bands americanas, da canção romântica dos filmes de Hollywood, da música ligeira européia, até da música moderna francesa de Debussy e Ravel.
A orquestra brasileira, como vemos, não pode ter uma formação padrão como uma big-band, como uma orquestra sinfônica convencional ou uma banda militar. Deve, no entanto, por força das influências, poder soar como qualquer desses conjuntos, como melhor convier.
Abro aqui um parêntese para observar que, não se sabe por que, a música popular brasileira não conseguiu assimilar, ou se apropriar, dos seguintes instrumentos: trompa, oboé, corne-inglês, fagote, harpa, violino, viola, violoncelo. Não há harpistas, oboistas, trompistas ou fagotistas que sejam profissionais na área de música popular. Eles vêm, em geral, da área da música erudita, do quarteto de cordas, das orquestras de câmara ou sinfônica. Encaram a música popular como um bom mercado de trabalho, mas nunca como trabalho principal. Costumo perguntar aos meus alunos, de brincadeira, se conhecem o Jacob do Bandolim do violino? Quem foi o Pixinguinha do fagote? Ou o Altamiro Carrilho do oboé? Sempre ficamos sem resposta. Fecha parêntese.
Diria, então, que a Orquestra Brasileira deve conter, não pela quantidade, mas, pelo timbre, parte do conjunto sinfônico. Deve conter saxofones, pelo menos um quarteto, para junto com os metais, fazer soar a banda de frevo e a orquestra de gafieira; deveria conter uma pequena orquestra de cordas com flauta e clarinete, como as orquestras de salão e cafés-concerto, que executavam polcas, schotische e mazurcas, vindas da Europa, que logo iriam se fundir ao lundu e à habanera para fundar o choro. Por falar nisso, a verdadeira Orquestra Brasileira deve conter um regional de choro completo, com bandolim, cavaquinho, violões de 6 e 7 cordas e pandeiro. Conforme o estudo que se faça, o naipe de cordas dedilhadas pode ser ampliado de modo a substituir totalmente as cordas de arco.
Será necessário, eventualmente, que a orquestra soe como os conjuntos de pau e corda nordestinos, para executar frevos de bloco, xotes, baiões, rojões e xaxados. Não se pode esquecer de incluir, nessa “furiosa”, a viola caipira, em caso de se querer toadas, modas de viola, catiras e embolada. E nunca, jamais esquecer que quem começou tudo isso foi a banda de retreta, de Anacleto de Medeiros, com flauta, flautim, clarineta, pistão, bombardino, trombone e tuba, caixa clara, pratos e bombo.
Bem, a questão da formação da Orquestra Brasileira não está, nem de longe, fechada. Podemos virar, mexer e inventar outra e mais outra formação, com mais ou menos sopros, mais ou menos cordas dedilhadas, mais ou menos cordas de arco, com ou sem corne-inglês, fagote, trompa, harpa, tímpanos...
A verdade é que, a vida inteira, o maestro e o compositor brasileiros se acostumaram a criar mais com menos. As orquestras brasileiras de teatro musicado, televisão e cinema, geralmente eram, e continuam a ser, formadas com poucos músicos, sempre incompletas. Mesmo as orquestras sinfônicas, as que têm mais recursos, quando necessitam de um ou mais instrumentos, contratam músicos extras, e está acabado.
O jeito sempre foi contornar a adversidade, improvisar, criar saídas inteligentes para os problemas. Por isso, grande parte do acervo de música popular orquestrada de Radamés Gnattali, praticamente inédito, pois executado apenas na Rádio Nacional, há 60 anos, apresenta arranjos de diversas formações, maiores ou menores, dependendo do gênero da música, do tipo do programa e, às vezes, das condições oferecidas pela produção.
É notável a dificuldade de se conseguir um naipe de cordas de arco completo, equilibrado, para inclusão em uma orquestra de música brasileira. Além do fato desses músicos, normalmente, não se preparem para a música brasileira, batemos de frente com a questão da quantidade de músicos necessários para a formação de um naipe, minimamente equilibrado, para compor com os sopros, a base harmônica e a percussão. Se, por um lado, uma orquestra pode funcionar, perfeitamente, com 2 trompetes, 2 trombones, 4 saxofones, flautas e clarinetes, não se pode esperar que funcione com menos do que 14 violinos, 4 violas, 4 cellos e 2 contrabaixos.
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