5 e 6 de novembro de 2011

Limite, de Mario Peixoto, 1931

Auditório Ibirapuera exibe Limite restaurado
e com acompanhamento musical ao vivo

O cultuado filme de Mário Peixoto foi restaurado e ganhou acompanhamento musical inédito no Brasil assinado pelo compositor e pianista norueguês Bugge Wesseltoft, que vem ao país tocá-lo ao vivo durante a exibição no palco do Ibirapuera com Naná Vasconcelos, Marlui Miranda, Rodolfo Stroeter e Ola Kvernberg; Limite é também tema de debate na sede do Itaú Cultural

O Auditório Ibirapuera e o Itaú Cultural abrem a programação de novembro mesclando cinema e música em alto estilo. No dia 4, às 20h, o Itaú Cultural promove debate sobre o cultuado filme Limite, de Mário Peixoto, em sua sede na Avenida Paulista, com Ismail Xavier, especialista em cinema, Carlos Augusto Calil, cineasta e secretário municipal de Cultura, e Stella Senra, pesquisadora em cinema, vídeo e fotografia. Nos dias 5 e 6 (sábado às 21h, domingo às 19h), o Auditório Ibirapuera exibe esta obra única recém-restaurada pela Cinemateca Brasileira e pelo laboratório L’Immagine Ritrovata da Cineteca di Bologna, na Itália, em uma iniciativa da World Cinema Foundation, instituição criada por Martin Scorsese.

O filme ganhou mais uma trilha musical, inédita no Brasil, composta pelo norueguês Bugge Wesseltoft, um dos nomes mais significativos no mundo da música criativa na atualidade. Ele vem executá-la ao vivo durante a projeção, ao lado de seu patrício o violinista Ola Kvernberg e dos brasileiros Rodolfo Stroeter, no baixo, Naná Vasconcelos, na percussão, e Marlui Miranda, na flauta e voz.

Mário Peixoto estreou o longa-metragem em 1931, no entanto, apesar de ter se tornado uma referência no cinema mundial, teve pouca repercussão no circuito cinematográfico da época. O filme só voltou a ser exibido em alguns festivais em 1978, mas continuou objeto de estudos e discussões. A World Cinema Foundation, instituição sem fins lucrativos presidida por Martin Scorsese, apoiou a finalização da restauração digital do filme e a transferência de volta à película de imagem e som. A restauração digital foi feita na Cinemateca Brasileira e no laboratório L’Immagine Ritrovata da Cineteca di Bologna, na Itália.

A trilha sonora original, concebida pelo pianista e um dos atores do filme, Brutus Pedreira, era na época reproduzida em gramofone a cada apresentação. Bugge Wesseltoft se inspirou nela para compor o novo repertório, com a participação criativa de Stroeter, Naná e Marlui. Eles realizaram combinações sonoras inéditas, enriquecendo a percepção do filme em uma essência multicultural e plural com o objetivo de envolver os espectadores.
“Fizemos uma ambientação impressionista baseada na seleção das primeiras músicas que acompanharam o filme”, explica Stroeter que, depois de encantar mais de mil espectadores – incluindo o príncipe e a princesa da Noruega – na première realizada na Òpera House de Oslo, trouxe o projeto para o Brasil. O mesmo grupo de músicos e mais o norueguês Ola Kvernberg prometem repetir o encantamento em São Paulo.

Debate no Itaú Cultural
Para debater as questões estéticas da produção, histórias dos bastidores do filme, as analises da crítica especializada e a importância histórica da obra, o Itaú Cultural convidou Ismail Xavier, Carlos Augusto Calil e Stella Senra para um debate e conversa aberta com o público na Sala Itaú Cultural na Paulista.

Um dos pontos que Ismail Xavier vai debater é o modo como a câmera foi usada na construção imagética do filme, pela primeira vez no cinema nacional, em cortes e enquadramentos que aprofundam a alegoria inicial. “Tanto é que neste filme a sinopse pouco revela. Mais importante do que o que está sendo contado é como aquilo está sendo contado”, argumenta.

Em sua opinião, em Limite a natureza se torna um personagem tão fundamental para o enredo quanto o homem e as duas mulheres que enfrentam o mar e a morte naquele pequeno barco à deriva. Em uma mistura entre fascínio e medo de ser tão pequeno diante da grandeza da natureza que cerca os personagens, o filme dialoga com produções atuais como A Árvore da Vida, de Terrence Mallick, e Melancolia de Lars Von Trier. Ainda de acordo com ele, também já dialogava com outros das vanguardas europeias da época em que foi lançado, sem revelar necessariamente um olhar nacional.

“Existe um dialogo direto com vanguardas como o construtivismo russo de Serguei Eisenstein e o impressionismo que traçou influências da Nouvelle Vague francesa de Jean Epstein”, diz Xavier. “Mas é, ao mesmo tempo, um cinema dele próprio, autoral. Agora, se isso pode ou não significar uma brasilidade é outra questão”, provoca.

Para Carlos Augusto Calil, Limite não tem preocupação narrativa. “Não é prosa, é poesia”, diz ele para quem o filme concretiza no mais alto grau a linguagem do cinema silencioso, enquanto realização técnica e poética. No debate, ele fará referência ao valor político da obra, reforçando sua opinião – contrária à de Xavier – sobre a importância de um discurso nacional no filme. Ele acredita que, embora tenha sofrido preconceitos e tenha sido acusado de alienado, Limite se destaca justamente por esse discurso. “Apesar de ser tão vanguardista quanto as produções europeias, Limite é muito brasileiro. Seus problemas são brasileiros, sua paisagem é brasileira, sua potência é brasileira”, defende.

Stella Senra vai analisar o diálogo do filme com a escola impressionista francesa do século XX destacando que, nele, Mario Peixoto sobrepõe um olhar novo sobre a paisagem tropical brasileira. “Com certeza, em Limite a natureza tem a mesma função de exprimir estados da alma que lhe era atribuída pela vanguarda francesa. Mas, curiosamente, essa mesma filiação europeia faz o filme oferecer um olhar único sobre a paisagem brasileira” comenta.

“Mario Peixoto mostra um leque de referências de como revelar esta natureza tropical exuberante em toda sua grandeza, que é único no cinema nacional e que hoje começa a reaparecer não apenas no cinema internacional, como também em produções brasileiras”, comenta Stella adiantando as questões que levantará no debate.

O Filme
Limite se destaca por grandes inovações em fotografia e montagem e também por uma narração não linear. Com planos longos e incômodos e enquadramentos precisos, o filme conta a história de um homem e duas mulheres em um barco perdido no mar. Cansados eles param de remar e se conformam com a morte inevitável. Por meio de flashbacks, eles relembram seu passado em uma mistura de sentimentos que vão do desespero inútil à fuga. A partir deste roteiro, o diretor traça uma bela história sobre a passagem do tempo e a condição humana.

A atuação contida e sóbria dos atores, sem apelar para o melodrama dos filmes mudos da época, foge de aprofundamentos psicológicos e se universaliza fazendo com que cada personagem represente a humanidade toda, com sua fragilidade e impotência, frente à natureza. No início do filme, gravado em Mangaratiba, urubus mórbidos rodam o barco que aparece na sequência em uma imagem simbólica cercada de mar por todos os lados. Um plano fechado mostra um rosto feminino de frente, com olhar fixo para além da lente da câmera, encoberto por outra imagem, a das mãos de um homem algemadas.

Além de Mario Peixoto, um dos grandes responsáveis pela qualidade técnica e estética que marcam esta produção ícone é o diretor de fotografia Edgar Brasil. Ele assina também a fotografia de diversos filmes da Atlântida, como Luz dos Meus Olhos (em 1947), de José Carlos Burle, Brasa Dormida (em 1928), Sangue Mineiro (em 1930) e Ganga Bruta.

Apesar do sucesso de crítica e de ter se tornado uma referência no cinema mundial, Limite teve pouquíssimas exibições e nunca entrou no circuito comercial. Foi exibido pela primeira vez no dia 17 de maio de 1931 no Cinema Capitólio, no Rio de Janeiro, em sessão organizada pelo Chaplin Club, que o anunciou como o primeiro filme brasileiro de cinema puro. Após esta primeira exibição, Limite foi mostrado em ocasiões isoladas em Paris e em Londres. A dificuldade de encontra-lo em cinemas no Brasil e no exterior o fez ganhar a fama de obra-prima desconhecida.

Em 1959, quando o filme começou a se deteriorar, Plinio Süssekind e Saulo Pereira de Mello iniciaram um primeiro longo trabalho de restauração, mas o filme só voltou a ser exibido em 1978. Mesmo tendo ficado quase 20 anos sem poder ser visto, continuou sendo objeto de estudos e discussões.

Perfil dos músicos e dos debatedores

Bugge Wesseltoft: Pianista e compositor norueguês é um dos nomes mais significativos no mundo da música criativa de hoje. Através de uma sonoridade única e moderna que abrange as tradições musicais de seu país de origem, Bugge é um músico com diversos trabalhos lançados em CD como líder, além de atuar em cooperação com alguns dos mais significativos nomes da música atual como Jan Garbarek, Terje Rypdal e Billy Cobhan.

Carlos Augusto Calil: Professor do departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Exerceu funções de direção em órgãos públicos culturais (Embrafilme, Cinemateca Brasileira, Centro Cultural São Paulo). Desde abril de 2005 é Secretário Municipal de Cultura de São Paulo. Realizador de documentários em filme e vídeo. Autor de ensaios e editor de publicações sobre cinema, iconografia, teatro, história e literatura, dedicados a autores como Blaise Cendrars, Alexandre Eulalio, Paulo Emilio Salles Gomes, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Federico Fellini, Paulo Prado, Vinicius de Moraes.

Ismail Xavier: Graduado em Comunicação Social com Habilitação em Cinema pela Universidade de São Paulo (1970), mestrado em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (1975), doutorado em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (1980) e doutorado em Cinema Studies – New York University (1982). Professor associado da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Cinema, atuando principalmente nos seguintes temas: cinema, cinema brasileiro, cinema moderno e contemporâneo, teoria e história do cinema, cinema e teatro, cinema e pintura, cinema e fotografia, cinema e fotografia.
Marlui Miranda: Compositora, cantora, flautista e percussionista, Marlui Miranda pesquisa e estuda a música dos índios brasileiros desde a década de 70. Com discos gravados no Brasil e no exterior, atua como consultora de música indígena em filmes e eventos e também produz espetáculos, como a missa indígena criada a partir de músicas de tribos e apresentada na Catedral da Sé, em São Paulo. Seus CDs IHU – Todos os Sons e Kewére – Rezar, são referências na discografia de world music.

Naná Vasconcelos: Um dos maiores percussionistas brasileiros, ele se notabilizou pelo talento com o berimbau. Com diversos CDs, tem carreira consolidada no Brasil e no exterior. Atuou ao lado de nomes como Jon Hassel, Egberto Gismonti, Pat Metheny, Evelyn Glennie e Jan Garbarek, e formou, entre 1978 e 1982, ao lado de Don Cherry e Collin Walcott, o grupo de jazz Codona, com o qual lançou três álbuns.

Ola Kvernberg: O violinista e compositor norueguês é considerado uma das grandes revelações da música internacional. Tendo estudado no Music Conservatory of Trondheim, iniciou a sua carreira em uma aparição no Django-Festival de Oslo em 2000 e desde então já tocou com nomes consagrados da música como Les Paul, Doug Raney, Toots Thielemanns, James Carter, Pat Metheny, Jeff Parker e Joshua Redman. Além disso, faz parte de projetos como The Scarlatti Ensemble (orquestra de música barroca/ contemporânea), Ingebrigt Haker Flaten Quintet e o trio de música folk Gammalgrass.

Rodolfo Stroeter: Atua no cenário musical brasileiro desde o final da década de 70. Pertenceu aos históricos grupos instrumentais Divina Increnca e Grupo UM e é um dos fundadores do Grupo Pau Brasil onde toca desde 1978. O grupo, que tem grande repercussão nacional e internacional, já lançou nove álbuns instrumentais, além de ter feito incontáveis turnês no Brasil, Europa, Japão e Estados Unidos. Além de seu trabalho como instrumentista, Rodolfo Stroeter atua ativamente como produtor musical.

Stella Senra: Doutora em Ciências da Informação pela Universidade de Paris II e Pós-doutora pela Universidade de Paris VII.  Foi professora da PUC-SP, é pesquisadora e ensaísta focada em cinema e as suas interseções com o vídeo, a fotografia e as artes plásticas.

  • Dia:

    5 e 6 de novembro

  • Horários:

    Sábado, 21h. Domingo, 19h

  • Duração:

    120 min (aproximadamente)

  • Ingressos:

    R$ 20 e R$ 10 (meia entrada)

  • Classificação Indicativa:

    Livre para todos os públicos

  • bilheteria

2018 Auditório Ibirapuera - Alguns direitos reservados